julho 04, 2010

CineBororó: Flor do Deserto

Soco no estômago.

Não há outra fase que consiga resumir -tão simples e claramente -o sentimento que se instalou no meu corpo depois de assistir o filme "Flor do Deserto". Esse foi o escolhido para a sessão do CineBororó de Julho (pra quem não se lembra, já falei de outros filmes e a dinâmica da discussão aqui).

O filme (baseado no livro de mesmo nome) conta a história real de Waris Dirie: uma menina da Somália, que foge da sua vida nômade no país africano, para se tornar uma famosa modelo em Londres, e mais tarde, embaixadora da ONU contra mutilação da genitária feminina.

Dá pra ver que o assunto não é leve. E não é nada leve mesmo. Imagina que mais de 6 mil mulheres (crianças na verdade) são mutiladas todos os dias, principalmente em países Africanos e Asiáticos. A mutilação é uma maneira de preservar a virgindade da mulher e deixar o "dote" mais caro. Pra entender o procedimento (que tem níveis mais brandos e outros mais severos): o clitóris é removido e os lábios superiores costurados. E essa mutilação acontece de forma muuuita caseira (até com espinhos) e com materiais não esterilizados. O que acarreta em muuuuitas mortes.

A história é forte, mas muito bem contada, mostrando os momentos decisivos da vida da Waris.
O filme trabalha com dois conceitos principais, na minha opinião: CORAGEM e REAÇÃO.

CORAGEM:
- de perceber que ter um casamento arranjado não era seu caminho;
- de atravessar um deserto sozinha, literalmente;
- de ir embora do conhecido, da Somália, para tentar algo completamente novo em Londres;
- de aprender inglês, ouvindo TV escondida na Embaixada da Somália em Londres;
- de perceber que era diferente das outras mulheres, e mudar.
REAÇÃO:
- de não parar no primeiro obstáculo;
- de continuar mudando, mudando e se adaptando;
- de realmente fazer a diferença, de perceber a força que sua voz tinha. Não se contentar apenas com a sua transformação.

A Waris tem uma força extraordinária dentro si.
E na discussão, depois do filme, abordamos alguns desses assuntos:

1. A força está dentro de cada um de nós. Sempre esteve. Sempre estará.
Tem uma cena, em que um homem tenta violentar a Waris quando adolescente, mas ela consegue fugir atacando o homem com uma pedra. Daí a Cris, da Bororó, falou uma frase que eu nunca mais vou esquecer: "Sempre tem uma pedra perto da gente". Sempre.

2. Corrente do Bem: sempre tem anjos / amigos / pessoas que fazem a diferença no seu caminho. E nesse caso, Waris teve sorte de ser ajudada por uma vendedora da TopShop (interpretada pela queridíssima Sally Hawkins de "Happy-go-Lucky") e depois pelo famoso fotógrafo Terry Donaldson. E para não deixar a impressão de que só atraímos gente do bem, a Waris deu muito azar ao ir no hospital, pq o médico pediu ajuda para um enfermeiro da Somália. E este tentou persuadir a Waris a manter viva a tradição do país (e sua mutilação).


3. Teve uma cena que me chamou muita atenção, quando a agente da modelo pergunta: como vc está bonita. Tem feito sexo ultimamente, hein? Esse é mais uma daquelas visões masculinas sobre as mulheres. É claro que sexo é importante, mas a felicididade de uma mulher não está ligada somente ao prazer sexual. Nem ao homem. Esse tipo de associação me deixa um pouco irritada.

4. A Waris não permetiu ser comercializada. Duas vezes: nem ao tentar ser "vendida" pelos pais, nem depois de famosa, quando a mídia queria explorar ao máximo sua situação de menina que saiu do deserto para as passarelas. Uma pobre e coitada, que teve a sorte de ser descoberta por um fotógrafo famoso. Essa não era a imagem da Waris. Essa não era a história da sua vida. E a partir daí, aprovetou sua exposição para tentar mudar a realidade. Foi o turning point da sua vida. Mais uma vez, ela usou a força que tinha dentro dela para mudar sua realidade.

5. E outro conceito trazido pela Bororó: a saúde contamina. Tendo mais pessoas saudáveis a nossa volta, conseguiremos manter nossa própria saúde.

Enfim, não tem como transmitir toda a energia do filme. E, sinceramente, eu sai do cinema completamente arrasada, com o estômago todo quebrado. Era sábado de manhã, e sabia que não podia passar o resto do dia ou do final de semana assim. Então, aproveitei que estava um lindo dia em Porto Alegre, pra refletir e digerir o filme na Redenção, tomando um sol. Foi muito bom. Depois do choque, percebi que o filme me deu uma injeção de força e coragem. E é isso que importa.
(As duas Waris: filme+verdadeira)
#Fica a dica

3 comentários:

marie disse...

Carlinha,

Amei o post, amei a história do filme! Quero muito asissitir. Como faz? Eu fui no Fronteiras segunda passada que era com um médico congolês que atende mulheres vítmas de estupro e mutilação, mas o discurso dele foi meio decepcionante, na minha opinião...

Bejocas,

Marie

Cristina disse...

Guria,
Quando tu comentou sobre o filme lá no aniversário - mesmo com o detalhe do "soco no estômago, já fiquei com vontade de assistir. Lendo teu post, acho que vale mesmo a pena!
Quando dá, acompanho o blog! Bem legal!! =)
Beijão

Carla Link Federizzi disse...

Marie,
a gte assistiu o filme no Guion, mas acho que tem em outras salas. Essas discussões de filmes acontecem 1 vez por mÊs, geralmente o primeiro sábado do mês. Se inscreve no site da Bororó25 que vc passa a receber os convites para o evento. http://www.bororo25.com.br/

Cris,
mto obrigada :) Que bom saber que vc acompanha o blog. E sim, é forte, mas é mto bom. valleu.

bjinhos